Liderança Executiva
Co-CEOs: Erro de governança ou trunfo estratégico?
O caso Warby Parker e o valor da confiança no topo — o que 15 anos de liderança compartilhada ensinam ao C-Level e ao Board.
Ex-gestora da Floco, agência de marketing da Tailor · 09/03/2026

O senso comum corporativo diz que “cachorro com dois donos morre de fome”. No topo da pirâmide, a regra costuma ser a unidade de comando — para evitar conflitos de poder, garantir accountability e manter a clareza decisória. Mas a Warby Parker, avaliada em US$ 2,61 bilhões, desafia essa lógica com dois CEOs há mais de 15 anos.
Por que o modelo co-CEO costuma falhar?
A maioria das experiências com co-CEOs termina em conflito ou em paralisia decisória. As razões são conhecidas: sobreposição de autoridade, disputas de território, mensagens contraditórias para as equipes e, no limite, a incerteza dos investidores sobre quem detém a palavra final.
Empresas como Salesforce, SAP e Research In Motion (BlackBerry) passaram por experiências de co-CEOs que eventualmente foram desfeitas — algumas com custo estratégico alto. O argumento contra o modelo é bem documentado e tem fundamentos sólidos na teoria de governança.
O que diferencia Blumenthal e Gilboa não é sorte nem “química pessoal”. É a forma como estruturaram deliberadamente a co-liderança como um sistema — não como uma preferência.
“O risco não é ter dois líderes. O risco é ter uma liderança isolada, sem contraponto intelectual e sem mecanismos de refinamento decisório.” — Perspectiva Tailor sobre Arquitetura de Liderança
Três lições de governança para o C-Level e o Board
O caso Warby Parker oferece, na prática, um estudo sobre como transformar uma estrutura aparentemente frágil em vantagem operacional. Há três princípios que sustentam o modelo:
01 – Confiança como ativo financeiro
Em finanças corporativas, fricção tem custo — ela se manifesta em ciclos de decisão mais longos, retrabalho estratégico e perda de velocidade de execução. A confiança mútua entre os co-CEOs da Warby Parker funciona como um redutor de fricção mensurável: quando há respeito intelectual genuíno, a decisão é refinada — não disputada. Isso encurta o tempo entre identificação de problema e resposta executiva.
02 – Desenho organizacional com clareza de papéis
O sucesso do modelo não veio do improviso — veio da delimitação intencional. Cada co-CEO possui áreas de responsabilidade distintas, com subordinados diretos específicos. Isso é governança aplicada: a clareza de papéis elimina ambiguidades, reduz conflitos de autoridade e sustenta a prestação de contas em todos os níveis hierárquicos. Para qualquer Board, esse princípio vale independentemente de haver um ou dois líderes no topo.
03 – Sincronização contínua como mecanismo de controle
O alinhamento diário entre Blumenthal e Gilboa — dentro e fora do ambiente corporativo — funciona como um mecanismo informal de controle estratégico. O resultado prático é que a mensagem que chega às equipes é única e coerente, acelerando a coordenação entre frentes críticas de negócio. Em organizações onde a ambiguidade de direção é uma fonte frequente de ineficiência, esse modelo de sincronização tem valor operacional concreto.
O que isso muda para quem está no Board ou no C-Level?
O caso Warby Parker não é um argumento universal pela co-liderança. É um argumento pela arquitetura deliberada de liderança — seja com um ou dois executivos no topo. A lição central é que a estrutura importa mais do que o número.
Para Boards, o caso reforça a necessidade de ir além da avaliação de perfil individual dos líderes. As perguntas relevantes são: os mecanismos de tomada de decisão estão claros? Há redundância estratégica saudável — alguém capaz de fazer contraponto construtivo? A mensagem que sai do topo é coerente com o que chega à base?
Para C-levels, o modelo sugere que a eficiência executiva está menos ligada à concentração de poder e mais à qualidade dos processos de alinhamento. A velocidade de adaptação organizacional — hoje um diferencial competitivo real — depende de líderes que refinam decisões, não de líderes que as acumulam.
Takeaway Estratégico
No mercado atual, onde a velocidade de adaptação é uma nova vantagem competitiva, talvez o risco mais subestimado não seja o de ter dois líderes — mas o de ter uma liderança isolada, sem contraponto intelectual e sem mecanismos formais de refinamento decisório. A Warby Parker não prova que co-CEOs são a solução. Prova que governança bem arquitetada pode tornar improvável aquilo que todos assumem ser inevitável.
Sobre o autor
Silvia Salles
Ex-gestora da Floco, agência de marketing da Tailor
Publicou artigos no blog da Tailor Executive Search quando era gestora da Floco, agência de marketing contratada pela Tailor.
Ver todos os artigos de Silvia

