*Artigo originalmente publicado no Jornal de Piracicaba

Assim como o meu pai, fui educado e estimulado a trabalhar a vida inteira em uma só empresa. Até recentemente, procurar outro trabalho era sinal de traição ou mesmo de burrice. Se um currículo tivesse mais de duas páginas, o candidato à vaga era considerado volúvel.

Anos atrás assisti ao filme Os Estagiários, em que os protagonistas, vendedores experientes, ficam desempregados depois que a empresa de relógios onde trabalhavam fechou as portas. Ninguém estava mais usando os relógios de pulso que vendiam e eles perceberam isso tarde demais. Passados alguns dias, mesmo não conhecendo nada sobre as modernas empresas digitais, conseguem vaga como estagiários no Google e juntam-se a centenas de candidatos mais jovens e antenados do que eles. É hilária a forma como esses estagiários seniores aprendem com a nova experiência.

Sem perceber, vivemos nossas vidas profissionais da mesma forma retratada no filme — mesmo para aqueles que tentam acompanhar a dinâmica do mundo, acontece a chamada crise de carreira. E ela faz com que sejamos estimulados a buscar novos conhecimentos e experiências para podermos encarar um mundo diferente todos os dias. Esta nova perspectiva obriga-nos a sair da zona de conforto e caminhar ao encontro de novas trilhas, em geral desconfortáveis, mas de grande aprendizagem. Decidir não caminhar por esta zona, a do desconforto, é escolher caminhar para a zona do estresse, onde perdemos a identidade e o controle da situação.

Entrar na vibração, ou na vibe, para usar um termo da moda entre os jovens, deste novo ambiente requer disciplina. Ela possibilita outro nível de visão e traz a oportunidade de antecipar e poder planejar novos e estruturados movimentos. Se nos anteciparmos, não teremos necessidade de esperar que área de RH decida por nós questões importantes relacionadas ao nosso futuro. Estudar, ler, conversar, trocar ideias, comentar, usar o networking, acessar, cocriar, curtir, compartilhar e colaborar a fim de reciclar nossa carreira não são apenas escolhas: são oportunidades. Com isso aprendemos a surfar ondas diferentes.

Apoiar e participar com responsabilidade dos movimentos nas redes sociais digitais não é brincadeira de adolescente. Devemos utilizar com eficiência o LinkedIn, Instagram, Facebook e TikTok a fim de nos atualizarmos e divulgarmos nossas competências. O dinamismo deste novo ambiente nos obriga a pensar a longo prazo e, ao mesmo tempo, cobra-nos: temos que fazer acontecer no curto prazo. Isto significa que devemos estar sempre pensando e nos preparando para o futuro, mas, ao mesmo tempo, viver de forma intensiva o presente.

Esses movimentos trarão outros significados aos papéis que hoje desempenhamos nas empresas, aos nossos departamentos, cargos e funções. Cargos e profissões surgirão e desaparecerão com maior frequência e não mais conseguiremos trabalhos nem poderemos mantê-los apenas com diplomas universitários. Estas tendências já estão mudando o repertório de quase todas as profissões, principalmente em cargos de liderança.

A fluidez do mercado, os avanços insanos da tecnologia somados às fusões, joint ventures e consolidações, sinalizam que a vida média de uma empresa será de 18 anos. Por causa disso, a nossa vida profissional será marcada pelo trabalho em mais de uma empresa e muito provavelmente iremos trilhar mais de uma carreira. Você está preparado?

Já devem ter lhe contado que a empresa em que trabalha fechou ou está mudando e, sutilmente, convida-o a acompanhá-la. A responsabilidade pela sua carreira não é da empresa, é sua.

**Gustavo Mançanares Leme – Sócio Diretor da Tailor | Headhunter & Estrategista de RH. É Conselheiro de Administração & Advisory de Startups e Mentor de Carreiras. Tem grande experiência em processos de Identificação de Talentos, Transformação Cultural e Turnaround de Modelo de Negócios. Autor do livro O acaso não existe.
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