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Co-CEOs: Erro de governança ou trunfo estratégico?

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O caso Warby Parker e o valor da confiança no topo — o que 15 anos de liderança compartilhada ensinam ao C-Level e ao Board.

O senso comum corporativo diz que “cachorro com dois donos morre de fome”. No topo da pirâmide, a regra costuma ser a unidade de comando — para evitar conflitos de poder, garantir accountability e manter a clareza decisória. Mas a Warby Parker, avaliada em US$ 2,61 bilhões, desafia essa lógica com dois CEOs há mais de 15 anos.

Por que o modelo co-CEO costuma falhar?

A maioria das experiências com co-CEOs termina em conflito ou em paralisia decisória. As razões são conhecidas: sobreposição de autoridade, disputas de território, mensagens contraditórias para as equipes e, no limite, a incerteza dos investidores sobre quem detém a palavra final.

Empresas como SalesforceSAP e Research In Motion (BlackBerry) passaram por experiências de co-CEOs que eventualmente foram desfeitas — algumas com custo estratégico alto. O argumento contra o modelo é bem documentado e tem fundamentos sólidos na teoria de governança.

O que diferencia Blumenthal e Gilboa não é sorte nem “química pessoal”. É a forma como estruturaram deliberadamente a co-liderança como um sistema — não como uma preferência.

“O risco não é ter dois líderes. O risco é ter uma liderança isolada, sem contraponto intelectual e sem mecanismos de refinamento decisório.”Perspectiva Tailor sobre Arquitetura de Liderança

Três lições de governança para o C-Level e o Board

O caso Warby Parker oferece, na prática, um estudo sobre como transformar uma estrutura aparentemente frágil em vantagem operacional. Há três princípios que sustentam o modelo:

01 – Confiança como ativo financeiro

Em finanças corporativas, fricção tem custo — ela se manifesta em ciclos de decisão mais longos, retrabalho estratégico e perda de velocidade de execução. A confiança mútua entre os co-CEOs da Warby Parker funciona como um redutor de fricção mensurável: quando há respeito intelectual genuíno, a decisão é refinada — não disputada. Isso encurta o tempo entre identificação de problema e resposta executiva.

02 – Desenho organizacional com clareza de papéis

O sucesso do modelo não veio do improviso — veio da delimitação intencional. Cada co-CEO possui áreas de responsabilidade distintas, com subordinados diretos específicos. Isso é governança aplicada: a clareza de papéis elimina ambiguidades, reduz conflitos de autoridade e sustenta a prestação de contas em todos os níveis hierárquicos. Para qualquer Board, esse princípio vale independentemente de haver um ou dois líderes no topo.

03 – Sincronização contínua como mecanismo de controle

O alinhamento diário entre Blumenthal e Gilboa — dentro e fora do ambiente corporativo — funciona como um mecanismo informal de controle estratégico. O resultado prático é que a mensagem que chega às equipes é única e coerente, acelerando a coordenação entre frentes críticas de negócio. Em organizações onde a ambiguidade de direção é uma fonte frequente de ineficiência, esse modelo de sincronização tem valor operacional concreto.

O que isso muda para quem está no Board ou no C-Level?

O caso Warby Parker não é um argumento universal pela co-liderança. É um argumento pela arquitetura deliberada de liderança — seja com um ou dois executivos no topo. A lição central é que a estrutura importa mais do que o número.

Para Boards, o caso reforça a necessidade de ir além da avaliação de perfil individual dos líderes. As perguntas relevantes são: os mecanismos de tomada de decisão estão claros? Há redundância estratégica saudável — alguém capaz de fazer contraponto construtivo? A mensagem que sai do topo é coerente com o que chega à base?

Para C-levels, o modelo sugere que a eficiência executiva está menos ligada à concentração de poder e mais à qualidade dos processos de alinhamento. A velocidade de adaptação organizacional — hoje um diferencial competitivo real — depende de líderes que refinam decisões, não de líderes que as acumulam.

Takeaway Estratégico

No mercado atual, onde a velocidade de adaptação é uma nova vantagem competitiva, talvez o risco mais subestimado não seja o de ter dois líderes — mas o de ter uma liderança isolada, sem contraponto intelectual e sem mecanismos formais de refinamento decisório. A Warby Parker não prova que co-CEOs são a solução. Prova que governança bem arquitetada pode tornar improvável aquilo que todos assumem ser inevitável.

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